domingo, 2 de julho de 2017

O ar não ferve

Esse foi o slogan adotado pela Volkswagen do Brasil, em 1965, por fazer alusão ao fato de seus motores serem refrigerados a ar e, por isso, não sofrerem com a fervura do líquido de arrefecimento. Vale lembrar que no cenário automobilístico da época, todos os fabricantes aqui instalados (DKW, Willys-Overland, Ford, Chevrolet, Simca e etc.), adotavam motores refrigerados a água e apenas a Kombi e o Fusca seguiam na contramão.



Entretanto, para que essa refrigeração seja eficiente, é necessário que todas as latas do motor estejam presentes. Pra começar, quando abrimos a tampa do motor do Fusca, o que vimos ali não é o motor propriamente dito e sim os “componentes” que o fazem funcionar: carburador, alternador, distribuidor e etc. O "bloco do motor" encontra-se mais abaixo, praticamente inacessível. A prova é tanta que qualquer manutenção nos cilindros, pistões, cabeçotes ou no próprio bloco, é necessário que ele seja removido do carro.


Com o motor fora do carro, é preciso remover todas, ou algumas, latas e é aí que tudo começa. Digo isso porque é comum alguns mecânicos negligenciarem a reposição delas, na maioria das vezes, por pura preguiça.

Para explicar melhor o processo de refrigeração e o papel dessas latas do motor, elaborei um breve passo a passo.

• Com o veículo parado
Ao darmos a partida, a bomba de óleo começa a sugar o óleo depositado no cárter através de um filtro (a peneirinha), fazendo com que o mesmo comece a circular pelas galerias de lubrificação existentes nas paredes da carcaça, assim como por canalizações e perfurações existentes na própria árvore de manivelas. O óleo ao passar por estes espaços vai aos poucos esquentando, sendo em seguida resfriado ao atravessa um radiador do tipo de serpentina. No radiador, o óleo perde cerca de 20° C, cooperando para manter as partes internas em temperatura ideal de trabalho. A pressão no sistema, quando em funcionamento, é indicada por uma luz de aviso que acende no painel de instrumentos, e se apaga assim que houver pressão no sistema. A refrigeração, nessa fase de funcionamento do motor, ocorre apenas pelo ar soprado da turbina localizada no interior da capela.



À medida que o óleo é refrigerado, ele segue lubrificando as peças móveis no interior do motor, como os mancais de virabrequim, paredes dos cilindros, cabeça dos pistões e o eixo comando de válvulas. Existe uma lata chamada de “camisa dos cilindros” que envolve os cilindros e cabeçotes, canalizando a corrente de ar forçada pela turbina para as partes mais aquecidas do motor. As camisas mantêm a parte interna do cilindro vedada e fazem a troca térmica.


O ar chegando aos cilindros e cabeçotes (que possuem aletas) recebe o calor gerado pelo funcionamento do motor e o transfere para o ar. A troca do calor com o ar se dá pelo movimento do carro. O ar mais frio que o motor passa pelas aletas, resfriando-as, e então o motor resfria.

Por baixo dos cilindros existem outras latas (como as que tiram o ar quente que circula nos cilindros e cabeçotes para fora do motor), sem elas ocorrerá a recirculação fazendo a turbina captar de volta esse ar quente.


Ainda tem as latas cuja finalidade é orientar a circulação do ar que chega frio ao motor até a sua saída, após passar pelas camisas dos cilindros e cabeçotes, sendo então direcionado para parte inferior do motor, onde é expelido por baixo do veículo. Estas latas têm ainda o papel de proteger as capas de tucho.


Além disso, ainda tem duas latas que servem de bloqueio para que o ar quente não retorne ao cofre do motor e seja sugado, ainda quente, pela turbina.


• Com o veículo em movimento

Quando o carro começa a movimentar-se, além da ventilação forçada proveniente da turbina, o ar que circula externamente contorna a carroceria do Fusca até deparar-se com 50 fendas, logo abaixo do vidro traseiro, e por elas sendo sugado pela turbina e direcionado para o radiador, camisas e cabeçotes.